Poemas Patrióticos da Literatura Brasileira

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Adeus à Pátria — Gonçalves de Magalhães

Adeus, ó pátria amada,
Saudosa terra, onde eu abri meus olhos
Pela primeira vez ao sol americano;
Onde maternais braços me acolheram,
E teu co'a vida o amor
No alvorecer dos meus anos fruí gostoso.

Ó margens do Janeiro,
Eu com que mágoa e pranto me aparto!
Adeus, brilhante céu da minha terra!
Adeus, ó serras que difíceis vinguei!
Adeus, sombrias várzeas,
Que tantas vezes passeei pensativo.

Adeus, augustos templos
Do Senhor, onde me lavei do pecado!
O som funéreo dos sagrados bronzes
Ainda vem os meus ouvidos magoar,
E n'alma desperta-me
Tristíssimas, cruéis reminiscências.

Eis ali a montanha
Cujos pés o mar beija em flórea espuma.
Quantas vezes ali, triste, assentado,
Minha alma infinita espraiava,
Os olhos vagueando
Sobre esse mar, que hoje deve levar-me!

Sim, eu te deixo, ó Pátria;
E deixo-te lutando co'as tempestades
Que no teu horizonte abalroam.
Ah! quanta dor o coração me punge
Ao ver alguns filhos teus,
Baldos de honra, e de ti olvidados.

Teus filhos... Ah! cobri-vos,
Se há algum, com o vosso desprezo e opróbrio.
Feras serpentes qu'entre mansas aves
Nos ovos se aqueceram, e mal nascem
Dilaceram os filhos,
E a própria ave que lhes dera a vida.

Malvados sicários,
Raça espúria, sem Pátria, desprovidos de brio,
Já alfanges afiando traidores,
Esperando só ensejo favorável
Do sangue não saciado
Daquela a quem bens e vida devem.

Não é terror, nem espanto
De aos pés ser calcado de intrusos Neros,
Nem ao cadafalso rubro atirado,
Que arrancar-me hoje de teu grêmio pode;
Nem a ambição me acena
Qu'eu vá terras mercadejar por longe.

Não, eu não temo a morte,
Nem dos tiranos temo a catadura;
Sei forte assoberbar adverso fado;
E o dever, que por norte tenho tomado,
Antolhando sempre a Pátria,
Morte honrosa prefere à vida de escravos.

Amor da sabedoria,
Desejo de colher lições do mundo
Leva-me às margens do soberbo Sena,
Para, se a sorte avessa me não for,
Perante o altar da Pátria
Vir prestar meus serviços com respeito.

A ti voto-me inteiro,
Tu és o meu amor, minha alma é tua.
Só para ofertar-te flores cultivo
Nos mágicos jardins da poesia;
Se te apraz o seu aroma,
Ah! transbordo de prazer e ufania!

Ah! praza a Deus que essa nuvem,
Que agora obumbra teu céu, tão belo sempre,
A cólera do Eterno não desabe
Sobre a cabeça triste de teus filhos!
Ah! praza a Deus que nunca
Teu anjo fuja a proteger teus lares!

Ó Senhor, protegei vós
O povo à Liberdade consagrado;
A Liberdade é vosso dom, nem mesmo
Aos homens tirais; como o mortal ousou,
Mísero pó da terra,
Obumbrando os teus dons, manchar teu nome?

Pátria cara, sem susto
Ergue a tua majestosa fronte,
As tuas montanhas e as tuas florestas!
Não sejas só conhecida no mundo
Pelos teus ricos tesouros,
Pelas maravilhas da sem-par natura.

Ó Pátria, levanta a marcha;
Já em teu seio tens dignos varões
De renome imortal, não te envergonhes
De cingir-lhes a fronte, aponta-os.
São eles que te escoram,
E hão de elevar-te à eternidade.

As solitárias ondas
Que sussurrando tuas praias beijam,
Já outrora, pedras não, não escuma,
Mas corpos e sangue arremessaram,
Cadáveres e sangue
Dos teus nascidos nas sagradas selvas.

Se inimigos ousarem,
Armados contra ti, em frágeis lenhos,
Cuspindo o trovão, o raio e a morte,
Abrir-se-ão estes mares que os sorvam;
Seus lívidos cadáveres
Tuas areias juncarão de novo.

O coração pressago
Veemente bate, e doce voz
Em meu peito ressoa e me diz
Que o céu de tais horrores há de preservar-te;
O coração não mente;
A paz firmou-se em ti, seja ela eterna!

Como a enchente do Nilo
Que estendendo-se sobre a terra egípcia
Deixa após si fertilidade aos campos,
Assim a paz te fecunda, e aviva
O povo que te habita,
E por ti bafejada a indústria floresce.

Quão grato não serei
Se me for dado correr teus campos ainda,
Beijar dos pais as mãos encarquilhadas,
Abraçar os amigos, e em arroubo,
Nesse celeste instante,
Novos cantos, ó Pátria, tecer-te!

Canção do Exílio — Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Pátria — Olavo Bilac

Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde
circulo! E sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!
E, em seiva, o meu clamor à tua voz responde,
e subo ao teu céu, do cerne, de galho em galho!

Dos teus líquens, dos teus cipós, da tua fronde,
do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,
do fruto que a casca em teu seio esconde,
rebento em ti, e em luz espalho o meu trabalho!

Vivo em ti, choro em teu pranto, e, em teus dias felizes,
no alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!
E eu, morto, — sendo tua a cinza das raízes,

ferida e insultada, eu tremerei sepulto:
e os meus ossos no chão, como as tuas raízes,
se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!

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